março5

Vamos logo porque o tempo não para
e não precisamos das poucas horas
que o relógio nos oferece com seu tic tac
para saber o que somos agora
O desejo corre por entre as minhas veias
pulsa dentro do meu peito e vira verbo
eu canto o medo do marujo pelas sereias
O amor é surdo, mudo, aleijado e cego
É sentimento que corrompe a corrupção
que nos revela o mais verdadeiro elo
entre o pensar, o agir e a emoção
É saber que o feio também se faz belo
Se faço poesia é porque sou louco
não consigo criar prosas nem meias palavras
brinco com significados de verdades rasas
e às vezes sou tão profundo e tão pouco
* Texto de Adaildo Neto extraído do blog Excessos de dúvidas frequentes sobre o nada
março4
Infelizmente não sei escrever. Nem posso garantir que minhas letrinhas miúdas possam um dia se juntar num texto bom, digno de orgulho materno. Vou por aí servindo palavras mornas, em textos mornos, cozidas ao bafo, sem sal pra não aumentar a pressão.
De onde vim não tenho saudade. Perdi o caminho de volta.
Enquanto isso vou manipulando palavras, entre quentes e frias, temperadas com o desassossego de sentir a alma virada ao avesso, estendida, secada ao sol da misericórdia divina e humana antes tentar encontrar Pasárgada.
Melhor ficar com Lígia:
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(…) “Com a ponta da língua pude sentir a semente apontando
sob a polpa. Varei-a. O sumo ácido inundou-me a boca. Cuspi
a semente: assim queria escrever, indo ao âmago do âmago
até atingir a semente resguardada lá no fundo como um feto”.
(Verde lagarto amarelo)

fevereiro10

Eu te deixei pra trás e o carnaval ainda nem havia chegado, lembra?
Uma semana antes olhava nos teus olhos. Na quarta-feira de cinzas, esmaeci.
Desapareci numa nódoa, como uma foto antiga borrada após a primeira gota de lágrima derramada ao acaso, sem dor.
Antes, poucos dias antes, no domingo anterior, ouvi promessas de amor eterno. A palavra sempre destroi minhas esperanças de eternidade.
E agora que te tenho de novo em meus braços, olho o calendário: lembro dos pandeiros, das cuícas, dos tamborins, dos corpos molhados e penso em como são frágeis os amores sem carnaval.
Imagem: Anjo Músico, 1480/Melozzo da Forli (Itália 1438-1494)/Afresco/Museu do Vaticano