abril30

Ontem quis morrer, morte súbita, sem susto. Seria assim um desmaiar da vida, solene adeus do sol no fim da tarde. Como se soubesse que logo ali, no alvorecer, abriria mais uma vez a caixinha de Pandora e deixasse escapar de mim todos os males. E essa frágil certeza explodiu em milhões de fragmentos/em luz e cor/e desejei acordar antes do desejo de morrer.
março5

Vamos logo porque o tempo não para
e não precisamos das poucas horas
que o relógio nos oferece com seu tic tac
para saber o que somos agora
O desejo corre por entre as minhas veias
pulsa dentro do meu peito e vira verbo
eu canto o medo do marujo pelas sereias
O amor é surdo, mudo, aleijado e cego
É sentimento que corrompe a corrupção
que nos revela o mais verdadeiro elo
entre o pensar, o agir e a emoção
É saber que o feio também se faz belo
Se faço poesia é porque sou louco
não consigo criar prosas nem meias palavras
brinco com significados de verdades rasas
e às vezes sou tão profundo e tão pouco
* Texto de Adaildo Neto extraído do blog Excessos de dúvidas frequentes sobre o nada
março4
Infelizmente não sei escrever. Nem posso garantir que minhas letrinhas miúdas possam um dia se juntar num texto bom, digno de orgulho materno. Vou por aí servindo palavras mornas, em textos mornos, cozidas ao bafo, sem sal pra não aumentar a pressão.
De onde vim não tenho saudade. Perdi o caminho de volta.
Enquanto isso vou manipulando palavras, entre quentes e frias, temperadas com o desassossego de sentir a alma virada ao avesso, estendida, secada ao sol da misericórdia divina e humana antes tentar encontrar Pasárgada.
Melhor ficar com Lígia:
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(…) “Com a ponta da língua pude sentir a semente apontando
sob a polpa. Varei-a. O sumo ácido inundou-me a boca. Cuspi
a semente: assim queria escrever, indo ao âmago do âmago
até atingir a semente resguardada lá no fundo como um feto”.
(Verde lagarto amarelo)
