Bloco de Notas

ou Blog da Golby

cheiro de caju

agosto28

- Decorei o teu bilhete, eu disse – nem sei como tive coragem, mas disse. Poderia explicar de maneira holística que uma força sobrenatural teria lançado minhas palavras rumo à imensidão de sentimentos que fluiam. A verdade é que estava com saudades. Só isso.

- Quer ouvir?, continuei, fecha os olhos e ouve o que você escreveu: “O presente mais lindo que recebi em toda a minha vida. Não sabia dessa minha paixão por flores. Obrigada por me fazer tão bem, tão feliz. Incrível essa tua facilidade pra me fazer sorrir, de felicidade mesmo”.
- E você disse que tava retribuindo a alegria que eu te dou, ela disse.
- Eu lembro. Nunca vou esquecer. Os astros dizem que entre nós há afinidade recíproca. Me parece uma coisa tão sólida como o…tempo.
- E o que mais?
- Nada mais, nem de menos, apenas o que é, o que seja.
- Hum, senti um cheiro de caju…tá sentindo?
- Tô, ele respondeu tocando levemente seus cabelos.

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ô! amor de ritual sem sangue.
Sem grito. Amor de transparência e membranas, condenado à ruptura
(A estrutura da bolha de sabão - Lygia Fagundes Telles)

Asas

agosto27

Um anjo me salvou hoje. Sei quem pediu que viesse até mim. Resisti. Insistente, como os anjos sempre sabem ser,  ele avançou com suas asas, me segurou os braços, cercou meus caminhos impedindo que me lançasse no abismo. Nem eu sabia que me lançaria. Só descobri quando sã e salva, sorrindo à toa, a gargalhada fácil, mais que o choro que conti algumas horas antes, me parecia bem mais natural. Ah, como eu queria ter me lançado…ora acreditando que voaria em direção ao sopro suave do vento – pura ilusão, agora eu sei -, ora acreditando que me esperava o impacto da queda. Fui salva é o que importa. Tudo deu certo antes do final.

Caixinha de Pandora

abril30

pandora

Ontem quis morrer, morte súbita, sem susto. Seria assim um desmaiar da vida,  solene adeus do sol no fim da tarde.  Como se soubesse que logo ali, no alvorecer,  abriria mais uma vez a caixinha de Pandora e deixasse escapar de mim todos os males. E essa  frágil certeza explodiu em milhões de fragmentos/em luz e cor/e desejei acordar antes do desejo de morrer.

A loucura paciente das horas amáveis

março5

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Vamos logo porque o tempo não para
e não precisamos das poucas horas
que o relógio nos oferece com seu tic tac
para saber o que somos agora

O desejo corre por entre as minhas veias
pulsa dentro do meu peito e vira verbo
eu canto o medo do marujo pelas sereias
O amor é surdo, mudo, aleijado e cego

É sentimento que corrompe a corrupção
que nos revela o mais verdadeiro elo
entre o pensar, o agir e a emoção
É saber que o feio também se faz belo

Se faço poesia é porque sou louco
não consigo criar prosas nem meias palavras
brinco com significados de verdades rasas
e às vezes sou tão profundo e tão pouco

* Texto de Adaildo Neto extraído do blog Excessos de dúvidas frequentes sobre o nada

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