Bloco de Notas

ou Blog da Golby

Evidências

novembro13

Para Aarão Prado

Quando tinha uns sete ou oito anos, talvez nove, vi dezenas de discos de vinil serem lançados aos céus numa disputa bizarra e ao mesmo tempo divertidíssima. Deixávamos pra trás, ou melhor, lançávamos à nossa frente, toda a história de um amor não correspondido, um amor amargo. Todos nós sabíamos que não era só brincadeira. Mas não podíamos perder a oportunidade de ver discos voadores pretos com suas cabines de controle coloridas alçarem voo. E lá se foram Carlos Gardel, Gal Costa, Maria Bethania, Roberto Carlos aterrissar sem glória e glamour no terreno baldio cem metros à frente. Lá ficaram, nunca foram resgatados. Refaço esse caminho mentalmente hoje algumas vezes. Atravesso a rua e vou em busca dos discos desprezados. Escolho, junto, guardo. Mesmo sem as capas. As capas…As músicas ficaram impregnadas em toda a nossa infância. Depois desse momento outros foram chegando. A música preencheu a casa, preencheu a todos. Comi, bebi, sorvi, inalei música em toda a minha vida. De casa veio a voz brasileira, os boleros, o samba de raiz, o rock, o pop, a bossa nova. Da casa de meus primos vieram o rock progressivo, o psicodélico, a “MPB”. Dos amigos vieram outros ritmos, das andanças pelo país veio o gosto pelo forró original do Ceará, o sambinha malemolente do Rio, a música underground, a instrumental, a experimental, de Floripa, Sampa, Rondônia. De casa veio o amor pelo instrumento: a minha voz emprestada ao violão do irmão, o gosto de ver a bateria tocada pelo outro, os amigos no palco, o microfone nem tão íntimo, nem tão estranho.

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Não posso ser hermética, homogênea, inflexível. Eu ouço tudo e tiro o melhor de tudo, o que meus ouvidos aceitam, minha mente processa, meu coração compreende. Sou totalmente flex pra aceitar Chitãozinho e Chororó. Como não? Estamos todos interligados numa grande rede que é a música brasileira. E quem há de negar que esta lhe é superior? Como não perceber Chitãozinho e Chororó nas músicas de Bethania que bebeu na fonte de Elizeth Cardoso. Não dá pra dividir Elis Regina de Angela Maria e Maria Rita de Elis Regina, de Milton. E Gal de Billie Holliday e Chico de Ary Barroso e Caetano de João Gilberto. E Adriana Calcanhoto de Madonna e Tom Jobim e Bebel de Ella e Paralamas de Fito Paez e Zeca Baleiro de Waldick Soriano ou Frejat de Janis Joplin. Beatles e Jimi Hendrix de Cássia Eller e Maria Gadu de Maysa e Marisa Monte. Não dá pra escapar do som do Lobão, da delicadeza do Cartola, da energia de Lenine, da poesia do Moska. Das baladas de dor de cotovelo do Herivelton Martins, da deliciosa languidez do Ney Matogrosso, de Brown, de Antunes, de Nando. Talvez minha lista de referência se estenda por muitas linhas. Egberto Gismonti, Villa-Lobos, Elba, Dominguinhos, Zélia Duncan, Cazuza, Dolores Duran, Pixinguinha, Mariana Aydar, Roberta Sá, Itamar Assumpção, Rita Lee. Prefiro parar por aqui pedindo desculpas a quem deixei de citar.

“Ai, ai meu, Deus, o que foi que aconteceu com a Música Popular Brasileira?”

Aumenta o som: vamos ter ouvidos pra ouvir a voz da música brasileira.

* Evidências, uma das músicas mais conhecidas na voz de Chitãozinho e Chororó é de autoria do compositor e cantor José Augusto e Paulo Cesar Valle. Seus cachinhos negros fizeram a cabeça de muitas jovens na década de oitenta. Nesse mesmo período eu andava ouvindo coisas menos prosaicas como Legião Urbana, Plebe Rude, Ira, Paralamas do Sucesso, Camisa de Vênus, Lobão, Gal, Caetano, Bethania, Queen, Binho, Bado, Zé Ramalho, Led Zeppelin, Pink Floyd, Chico Buarque e João Gilberto. Ouvi também RPM (uma traição aos bons costumes da época, mas não podia resistir ao Paulo Ricardo, uma festa pros hormônios. Frejat conta que quando Cazuza queria irrita-lo dizia que Paulo Ricardo era mais bonito que ele. E era. Hoje prefiro o cinquentão Frejat. Eu e Angela Ro Ro).

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“Evidências”

  1. On novembro 19th, 2009 at 12:03 pm Aarão Prado Says:

    Oi Golby, vou te contar uma historinha da minha vida.

    Como você sabe sou cantor e compositor, faço isso a 12 anos. O que você não sabe é que a primeira vez que subi num palco, foi na década de 80, participei de um show de calouros promovido e transmitido ao vivo pela folclórica rádio difusora de Tarauacá. O show foi ao ar depois do programa :”recordar é viver”, que tinha a apresentação de Antônio Budega.
    me apresentei cantando Rancho Fundo em uma clara e forçada tentativa de minha parte de imitar a versão do Xitãozinho e Xororó.
    ganhei como prêmio uma bola dente de leite e um sorriso da minha mãe.

    têm muito de música brasileira na história acima. Na música do sertão desenvolvi todo o meu gosto musical. Hoje apesar do rótulo que carrego, o ritmo que menos escuto por diversão é o rock, as vezes até questiono o porquê determinados solos e rifes não me emocionam mais etc…

    em suma:

    Você tê toda razão, o texto tá muito legal e a voz do xororó, que aquele garoto da história acima tentava imitar é muito estridente e insuportável. hhehehehehe
    mais belas músicas são capazes de tudo!!!

    Aarão Prado

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