março4
Infelizmente não sei escrever. Nem posso garantir que minhas letrinhas miúdas possam um dia se juntar num texto bom, digno de orgulho materno. Vou por aí servindo palavras mornas, em textos mornos, cozidas ao bafo, sem sal pra não aumentar a pressão.
De onde vim não tenho saudade. Perdi o caminho de volta.
Enquanto isso vou manipulando palavras, entre quentes e frias, temperadas com o desassossego de sentir a alma virada ao avesso, estendida, secada ao sol da misericórdia divina e humana antes tentar encontrar Pasárgada.
Melhor ficar com Lígia:
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(…) “Com a ponta da língua pude sentir a semente apontando
sob a polpa. Varei-a. O sumo ácido inundou-me a boca. Cuspi
a semente: assim queria escrever, indo ao âmago do âmago
até atingir a semente resguardada lá no fundo como um feto”.
(Verde lagarto amarelo)

fevereiro10

Eu te deixei pra trás e o carnaval ainda nem havia chegado, lembra?
Uma semana antes olhava nos teus olhos. Na quarta-feira de cinzas, esmaeci.
Desapareci numa nódoa, como uma foto antiga borrada após a primeira gota de lágrima derramada ao acaso, sem dor.
Antes, poucos dias antes, no domingo anterior, ouvi promessas de amor eterno. A palavra sempre destroi minhas esperanças de eternidade.
E agora que te tenho de novo em meus braços, olho o calendário: lembro dos pandeiros, das cuícas, dos tamborins, dos corpos molhados e penso em como são frágeis os amores sem carnaval.
Imagem: Anjo Músico, 1480/Melozzo da Forli (Itália 1438-1494)/Afresco/Museu do Vaticano
fevereiro7
Toma-me num abraço em que as tuas mãos façam-se em mil e percorram meus vãos, meus cabelos e que me enlace tão completamente
que quando eu me vir assim por ti enlaçado me sinta protegido, seguro, amado e quente e que me faça lembrar de ti mesmo longe do meu lado quando faltarem as mãos que me fazem bem porque eu já não saberei viver sem.
(retirado do blog Poesias em dia de Francisco Libânio)